Irmão Sol e Irmã Lua: Mito, Filosofia e Outras Buscas do Sagrado

A filosofia, assim como o mito e as experiências de religião do homem, é uma expressão, tentativa de respostas diante de suas situações-limite em busca de sentido e explicação para o insólito. Enquanto o mito e o sagrado se mostram por revelação, a filosofia por especulação da razão em proveito do homem, dos sentidos diversos de sua existência. Tomemos o exemplo de Francisco de Assis. Ao ser tocado pelas contradições de sua época, Francisco desperta para o Mysterium de modo singular e especial para sua época. Naquele ambiente de ostentação do clero e estrato social profundamente desigual ele faz uma opção de viver segundo seu Mestre e modelo, Cristo! Escolhe a simplicidade, porém carregada de significado: o sentido da vida e o encontro com seu Deus se dá em uma imersão total na Natureza, como parte dela (partilhando dessa natureza com o 'irmão Sol' , 'irmã Lua', 'flores', 'pássaros', outro homem...: todos criaturas de um mesmo Deus de amor). Se ele mesmo não sistematizou esse caminho e forma de sentido para as situações-limite, Boaventura definiu em um sistema que opta pelo apego aos evangelhos e exemplos dos mestres, Francisco e Cristo, este como modelo máximo. Boaventura, vivendo na Escolástica, resiste às tentativas de se explicar a fé pelo aristotelismo, caminho preferido por Alberto Magno e Tomás de Aquino. Esse momento cria divergências ideológicas que Alberto Magno procura conciliar pretendendo separar os objetos da teologia (propriedades divinas) dos da filosofia (a natureza e seus seres).
Hodiernamente podemos notar, pela reflexão da ética, semelhança com o contexto de Francisco. Assistimos manifestações de busca de sentido por parte do homem moderno no hedonismo, ou num reavivamento de buscas espirituais que pregam a destruição do sistema por um Deus que fará justiça aos deserdados.
No filme sobre Francisco de Assis, pinço a cena em que ele, ao voltar de seu agravo de doença, em êxtase 'dialoga' em um telhado com um pássaro, entendendo toda a maravilha e simplicidade de viver a vida plenamente, momento que ele usa para dar testemunho ao Papa Inocêncio III sobre suas bases de fé.

Márcio de Carvalho Bitencourt

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